CARCARÁ [DKW] – PRIMEIRO RECORD BRASILEIRO DE VELOCIDADE

Carcará, a canção de mesmo nome — música de José Candido e letra de João do Vale — foi cantada pela Nara Leão e também pelo Chico Buarque, além da Maria Bethânia e fazia imenso sucesso no país: o pássaro que “pega, mata e come, mais coragem do que homem, o bicho que avoa que nem avião”.

Anisio Campos dormia e acordava sobre o Carcará com os estudos com guache branco
para projetar o leme e passar as idéias para a equipe de modelagem,
além dos grafismos diferenciadores a serem escolhidos Fotos arquivo Obvio

A carroceria de alumínio, batida a mão numa fazenda de Matão, interior de São Paulo, foi montada sobre um chassi de Fórmula Júnior, com motor central-traseiro, feito por Chico Landi e Toni Bianco, uma categoria que, como tanta coisa no Brasil, não vingou. O volante era tão grande [para reduzir os problemas de estabilidade direcional] que precisava ser colocado no cockpit depois do piloto sentado.


Abaixo: Anisio Campos, Chico [o “Mestre-Funileiro] e Jorge Lettry nos desenvolvimentos na Fazenda Chimbó de Rino Malzoni, Matão – SPFotos arquivo Obvio


Na estrada de Matão para o primeiro teste, um “disco voador” fazendo um rasante em 1966 Foto arquivo Obvio

Anisio Campos e Rino Malzoni que assinavam o design e o projeto, colocaram a inscrição 
“CARROÇARIA MALZONI-CAMPOS” nas suas laterais, abaixo da faixa verde e amarela do Brasil. Inicialmente ele foi batizado de “Arpoador” por seu idealizador, Jorge Lettry – Chefe do Departamento de Competições da Vemag – que o criou a idéia para estabelecer o recorde brasileiro de velocidade absoluta em linha reta (streamlined), baseado no carro quebrador de recordes “Flecha Prateada”, da Auto-Union alemã.


O Silver Arrow ou Flecha Prateada da Auto Union, o streamline inspirador Foto arquivo Obvio

O projeto ganhou forma e foi para testes, nas imagens abaixo:
Jorge Lettry e Mario César de Camargo Filho Foto arquivo Obvio

Carcará em teste com Marinho e Lettry Foto arquivo Obvio

Carcará em teste com Marinho Foto arquivo Obvio

Rino Malzoni, Anisio, Leszek Bilyk ao volante, gerente de competições da Vemag e na sequencia diretor de redação da revista Quatro Rodas e Jorge Lettry no primeiro teste Foto arquivo Obvio

Durante o primeiro e único ensaio de “comportamento sobre a pista”, indo direto para a saída da Curva 2 na grande reta (antiga) de Interlagos abaixo, imagens arquivo Obvio.

O Carcará estava na estrada para estabelecer o primeiro recorde brasileiro de velocidade absoluta, que seria homologado segundo padrões internacionais de medição. Empurrado por um motor DKW de 1.100 cm³ e extraordinários 104 cv depois de preparado pelo gênio Miguel Crispim, que varava noites limando as janelas dos blocos para mais que dobrar a potência de motores que saíam de fábrica com 44 cv.

Foram oito meses de segredo na fábrica — que já estava em processo de fechamento, pois a DKW seria comprada pela Volkswagen no final de 1966 e sua linha de automóveis, descontinuada no ano seguinte — e oito meses de trabalho, até que na manhã de junho na Rio-Santos, onde o piloto escolhido para bater o recorde, Mário César de Camargo Filho não sentiu muita confiança naquele bólido e desistiu.


O Carcará foi pintado de branco (cor tradicional da Vemag) e enviado ao Rio de Janeiro de carreta para tentar estabelecer o recorde de velocidade Foto arquivo Obvio

Chico Landi e Anisio Campos examinam o nariz do streamlined, após o teste do piloto Marinho, que constatou tendência de decolagem, quando próximo dos 200 km_h Foto arquivo Obvio

Esta questionada dirigibilidade criou atritos entre Marinho, que era o piloto “número 1” da Equipe de Competições da Vemag e Jorge Lettry, que na última hora, convidou o piloto carioca Norman Casari, que acabou aceitando o desafio, mas sem antes colocar um volante de madeira com enorme diâmetro, para minimizar as reações em caso de necessidade, tornando a direção mais lenta.


Alinhado no retão da BR-2 – atual Avenida das Américas – na Barra da Tijuca – Rio de Janeiro Foto arquivo Obvio

O Projeto Carcará teve um grande padrinho: A Editora Abril, através do diretor de redação da Revista Quatro Rodas, Leszek Bilyk. Ele tinha grande amizade com o Jorge Lettry e foi um dos grandes incentivadores em construir o carro. Tanto que fez com que a Editora Abril importasse um cronômetro Omega, com foto-células, moderníssimo para a época, apenas para bater o recorde. Isto é, houve um patrocínio e grande incentivo de Quatro Rodas, tanto que o logotipo da revista está nas laterais do Carcará.


Norman Casari, no cockpit do Carcará Foto arquivo Obvio

Rino Malzoni, Norman Casari e Anisio Campos os Designers e o Piloto do recorde brasileiro Foto arquivo Obvio

Jorge Letry (esq.), o piloto Norman Casari, Anisio Campos e Rino Malzoni — ao fundo a Rural Willys da revista Quatro Rodas — usada para carregar o sistema de cronometragem Omega, adquirido especialmente para medir o recorde do Carcará Foto arquivo Obvio

O carro assustava. “A gente se escondia atrás de um Candango quando ele passava, de medo que o Norman fosse perder o controle”, conta Crispim. Os pneus escolhidos, Pirelli Cinturato garantidos até 240 km/h, tiveram de ser trocados, na frente, por modelos de rua Stelvio ST-17 Spalla di Sicurezza, diagonais, tirados da Vemaguet de outro piloto e então funcionário da Vemag, Bob Sharp [que participou do evento] haviam sido feitos para rodar no máximo a 150 km/h.

Os Cinturato tinham muita aderência e o carro entrava em pêndulo. Era preciso “descolar” a frente do Carcará do asfalto para que ele andasse em linha reta.O Carcará usou como paliativo estes pneus Pirelli diagonais, que no movimento da direção tinham reação mais lenta e deixavam o carro mais dirigível do que os radiais Cinturato, de menor atrito em linha reta e bem mais rápidos no movimento da direção, o que os italianos da Pirelli chamam de “Imediatezza di guida”. Os técnicos da Pirelli estavam muito tensos: e se os pneus não aguentassem e dechapassem? Anisio lembra que por causa do sol e pelo calor gerado nos pneus após os primeiros testes, a equipe decidiu montar os pneus nas rodas nas águas da Lagoa de Marapendi, em baixo da ponte, deixando os pneus que iam ser usados no teste “de molho” dentro da água para obter temperatura abaixo da ambiente.


Montando as rodas com pneus Pirelli resfriados nas águas do Canal de Marapendi Foto arquivo Obvio

O momento da quebra do recorde, passando pelos cronômetros Omega da Revista 4 Rodas Foto arquivo Obvio

Atingiu 214,477 km/h pelo piloto Norman Casari ao volante. O recorde internacional na época era de 327 km/h em carros com cilindrada entre 751 e 1.100 cm³, e 965 km/h de potência livre, mas foi uma vitória do projeto Carcará. Na noite do mesmo dia, Norman Casari inaugurou sua revenda DKW-Vemag, a Cota, na Rua Assunção, 401, em Botafogo, RJ.


O Carcará em exposição na inauguração da revenda Cota, em 29 de junho de 1966: da esquerda para a direita: Antonio Casari (pai de Norman), Norman, Italo Antonangeli (mecânico), Antônio Paulo Araújo, Bob Sharp, Miguel Crispim (o mago dos motores), Rony Sharp (de terno), Jorge Lettry, Götz Walter Leider, Rino Malzoni e um amigo de Norman Foto arquivo Obvio

ANOTAÇÕES

  • O carro foi desmontado para aproveitar seu chassi na construção do protótipo Casari A1, que tinha motor V8 272 – tipo Y de Galaxie com 4,4 litros [não confundir com o 302 do Maverick]. Antes de ser desmontado, fez papel de carro de astronauta num filme experimental de um aluno de cinema da USP. Depois a carroceria foi cedida à Glaspac, uma empresa que fabricava buggyes e réplicas de carros em plástico reforçado com fibra de vidro.
  • Ficou jogado num galpão por lá até que a Glaspac teve de esvaziar a área, chamou o caminhão de sucata e mandou esse capítulo da história do automobilismo brasileiro para um aterro sanitário qualquer, pois como ninguém sabia o que era aquele estranho carro que não servia para nada, o transferiram para uma Chácara na Represa do Guarapiranga e acabaram com ele, vendendo-o como sucata de alumínio.
  • Anisio Campos ainda chegou a procurar insistentemente o Carcará na Glaspac, foi até à Chácara tentar achar os restos mortais, mas ninguém mais sabia para qual sucateiro foi vendido. Salvo alguém que o tenha guardado, o paradeiro do carro é completamente ignorado. Dele só restou a capa vermelha que o cobriu no glorioso dia do recorde no Rio de Janeiro, que está em poder do Neudy [piloto e copnstrutor] – que estava lá no dia, junto com o Bob Sharp – em Maricá, RJ
  • O Colecionador e parceiro Paulo Trevisan desenvolveu com Toni Bianco a construção de uma réplica exata do Carcará, para colocar em seu Museu do Automobilismo Brasileiro, em Passo Fundo, Rio Grande do Sul. Um lugar merecido para um carro de motor 1-litro, feito no Brasil por brasileiros e que chegou ao incrível recorde de 212,903 km/h em 1966.

Principais características técnicas do Carcará:

  • Monoposto: chassi de treliça tipo Fórmula Júnior.
  • Motor DKW central-traseiro: 3 cilindros em linha, dois-tempos, ,três bobinas e três platinados.
  • Cilindrada: 1.089 cm3.
  • Diâmetro dos cilindros e curso dos pistões: 78 x 76 mm.
  • Potência: 104 cv DIN.
  • Torque: 13 mkgf.
  • Carburação: Solex 44 PHH, com carburador duplo e um duplo cortado, formando 3 corpos.
  • Câmbio de quatro marchas para a frente.
  • Freios a disco nas rodas dianteiras e a tambor nas traseiras.
  • Suspensão independente nas 4 rodas, braços superpostos, molas helicoidais e amortecedores hidráulicos
  • Carroceria de alumínio moldada à mão.
  • Pneus: traseiros, Pirelli Cinturato 165-15; dianteiros, Spalla di Sicurezza 5.60-15 .

Raio X do projeto carcará Foto arquivo Obvio

Reportagem da Revista AE Foto reprodução

Fonte: conteúdo do site Obvio, um guardião da história do automobilismo brasileiro e pioneiro em projetos de soluções urbanas em automóveis com o designer Anísio Campos – 06/03/1933 a 15/09/2019.

Luiz Salomão

Blogueiro e arteiro multimídia por opção. Dublê de piloto do "Okrasa" Conexão direta com o esporte a motor!

Um comentário em “CARCARÁ [DKW] – PRIMEIRO RECORD BRASILEIRO DE VELOCIDADE

  • 15 de agosto de 2020 em 23:41
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    e pensar que eu tive estes professores e amigos, em particular Norman Casari e Anisio Campos

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