PERFIL DE CAMPEÃO-PIERO GANCIA

A nossa vida é uma saudade só… de momentos e de pessoas queridas! Muitos não conheci pessoalmente na época, mesmo porque como um “enfant terrible” que era, enchia mais a paciência deles do que outra coisa. Era uma frestinha de oportunidade e sempre de cronômetro na mão, como se fizesse parte de alguma “equipe”… e foi nesse pique, que numa oportunidade única, já bode velho, participando de uma roda automobilística de lendas, como Zambello, Luizinho, Ferrerinha, Balder…e Piero Gancia, fui premiado, com dois presentes, meio que simultâneos, os autógrafos de Piero e Zambello, nas AutoEsporte, que contam seus perfis de campeão.
E hoje, aos 88 anos, perdemos o melhor dos melhores, ficamos mais uma vez órfãos da história, que automobilisticamente falando, estamos ainda formando, algo palpável, e nessa empreitada, não podemos esquecer e nem nos calar, do nome de Paulo Trevisan. Que por esforço próprio forma em Passo Fundo o Museu do Automobilismo Brasileiro.
A lenda Piero Gancia, o amante das Alfas formou um legado: piloto, dono de equipe, presidente da CBA, pai da jornalista Bárbara Gancia e do empresário Carlo Gancia representante da Indy na terrinha… chamava atenção da imprensa especializada e teve seu “Perfil de Campeão”, na revista AutoEsporte, do Redator Chefe na época, Victor Gouveia, publicado em coluna, em 1965 …

Apresentando “Sir Piero Gancia”…

Piero Gancia_Perfil de Campeão #1965 A
Foto da dupla da coluna…

“Dificilmente haverá em todo o mundo um volante igual ao Sr. Piero Gancia. Eu, pelo menos, não conheço. E o Sr. que vai ai em cima não é porque ele seja velho, não. É porque cai como uma luva. Ele é um senhor piloto, em toda a acepção da palavra. No sentido da palavra. No sentido puro, porque é “gentleman”. Campeão da fidalguia, do cavalheirismo e da desportividade. Acho que nunca pronunciou “bôbo” sequer.
Perdeu corridas incríveis, teve azares e foi fechado sei lá quantas vezes, como qualquer outro corredor, mas nunca perdeu a linha. Basta isso para fazer de Piero Gancia um modelo quase impossível. E sua simpatia e seu sorriso ressoam na simpatia e no sorriso permantes de sua esposa, dona Lula Gancia, que também adora o automobilismo e já andou, até, correndo em Interlagos: está aí o casal 20 do nosso desporto a motor.
Piero Gancia é italiano de nascimento e brasileiro por adoção. Descendo de (nem é preciso ressaltar) tradicional família que ainda tem castelo de verdade nas proximidades de Turim, sua terra natal. Piero corre há quatro anos, mas gosta do esporte há 42.
Chiii… acabei contando a idade. Não faz mal, porque ele não faz segredo disso. Sua paixão pelo esporte foi “herdada” do mano Roberto que já ganhou até em São Francisco, foi capa de “Car and Driver” e foi seu maestro di guida. Piero veio ao Brasil há 12 anos, tratar de vinhos. Neste setor, não precisava de mais fama.
Acabou grampeando notoriedade noutro campo, ou melhor, noutra pista. Sua paixão pelo automobilismo está veiculada a outra paixão, a determinada marca, a Alfa Romeo. Praticamente sempre correu com carros dessa origem, acabou por formar a única escuderia particular brasileira do momento. Equipe essa que vem de ser oficializada pela fábrica italiana. Agora que conta com três carros, sendo uma Giulia Spyder Veloce, uma Giulieta Zagato e uma Giulietta T.I. E para logo mais uma Giulia T.I. Super, nova série, freios a disco, que está sendo importada.
Sua primeira corrida foi nas 12 Horas de Interlagos, de 1960, quando guiou uma Giulietta que comprara de segunda mão, e fez parceria com Celso Lara Barberis. Sua vitória mais importante foi nas 3 Horas da Barra da Tijuca de 1964. Já foi campeão paulista em 1963, depois de ter sido vice no ano precedente. Detém dois recordes oficiais do autódromo paulistano: categoria 1300, com 4m12s e categoria 1600, com 4m03s. Ambos homologados.
No ano passado, chegou a ir à Itália especialmente para correr, a convite, na equipe oficial da Alfa, em Spa, mas ficou chupando o dedo na arquibancada, porque faltou carro.

Piero Gancia_Perfil de Campeão #1965 B
…texto da coluna e em detalhe o autógrafo de Piero!

Este ano, contudo, o convite foi renovado e Piero Gancia deverá ir juntamente com seu parceiro Emílio Zambello, para correr dois dos seguintes grandes prêmios: 12 Horas DE Nurburgring. 12 Horas de Snetterton, Circuito de Budapeste e 24 Horas de Spa. E por falar em Europa, vale dizer que Piero está voltando de lá, depois de um bate papo com Colin Chapman, do que resultou ser admitido ao departamento “top secret” que esconde o novo Fórmula 1 da Lotus, e depois de ver, na Scuderia Felipinelli, em Genebra, o protótipo P-2 da Ferrari. Está super atualizado. Em Monza, pilotou a Ferrari 330 e a Giulia T-2, da fábrica. Piero gosta de motores possantes e pistas velozes, acha Jim Clark o melhor, de longe, e ficou satisfeito quando o amigo Nino Farina lhe disse que Interlagos é o melhor traçado do mundo.
Nunca sofreu acidente, nem tem medo, mas já se viu em apuros duas vezes. A primeira, quando Luizinho capotou num treino e ele vinha coladinho, mas i piloto da Willys voou por cima de sua cabeça. Sem conseqüências, felizmente. E a segunda, nos últimos 1600 Quilômetros de Interlagos, quando ele foi seguindo a risca branca, na cerração. Mas a risca levava para fora da pista. E lá foi ele. Ou melhor, ia indo, quando as carreteras que o seguiam, lhe fizeram quase sanduíche, uma de cada lado, cortando a curva para a esquerda.
Ai ele percebeu que o negócio não era ir em frente. E voltou. Foi só susto. Este é o retrato “de cinco minutos” do corredor “gentleman”. “Que ainda vai dar muitas satisfações à sua (não pequena) torcida, e glórias ao nosso automobilismo.”

Meus caros botequeiros de plantão, mais aqui sobre nosso querido Gancia, no Blog do Gomes, no Blog do Rodrigo Mattar, no Bandeira Quadriculada do Paulo Peralta e no Brazilian Yellow Pages de Carlos de Paula…

(reprodução/AE)

Luiz Salomão

Blogueiro e arteiro multimídia por opção. Dublê de piloto do "Okrasa" Conexão direta com o esporte a motor!

7 comentários em “PERFIL DE CAMPEÃO-PIERO GANCIA

  • 2 de novembro de 2010 em 04:32
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    Piero foi um dos herois dos meus primeiros passos como amante do automobilismo, quando eu ainda era um menino, mas já sonhava com freadas no limite e conta-esterços. Eu babava naquelas Giulia Ti Super, ao ver as fotos nas paginas da Autoesporte. As fotos eram preto e branco, mas eu podia supor as faixas verde e vermelha, e o trevo de quatro folhas verde.
    Quando havia corrida no Rio, lá estava eu e lá estavam as Alfas. A Jolly, sua equipe, tinha também uma Giulietta Zagatto que era a coisa mais linda do planeta! Mais tarde vieram as GTA, maravilhosas, e a paixão só aumentou. Quando a Jolly trouxe a P33, e ainda colocou o Moco pra pilotar o foguete, dai eu enlouqueci de vez. Piero era um idolo do menino-adolescente que ia pras pistas torcer e vibrar com as Berlinettas/Alpine, com as Simca Abarth, KG Porsche e…com as onipresentes Alfas da Jolly.
    Quantas vezes eu vi aquelas Alfas passarem, quando iam rodando para o autodromo. Quantas vezes “engatamos” os fuscas 1300 na traseira delas (andando devagar, é claro), só pra ir ouvindo o ronco poderoso dos motores 4 cilindros bialbero. Só pra ir apreciando a cambagem negativa da roda dianteira interna, mesmo nas curvas feitas em baixa velocidade. Quantas vezes eu fiquei, anonimo e quietinho, ouvindo a conversa do Piero, do Zambello e dos mecanicos, nos finais de tarde e finais de treino, nos boxes da Jolly. Sempre babando.
    Gostaria muito de ter a capacidade e a arte para prestar aqui uma homenagem ao D. Piero, que estivesse a altura da sua elegancia, da sua capacidade como piloto e do muito que ele fez pelo nosso automobilismo. Não tenho. Mas deixo aqui o meu maior respeito por esse “brasilianno” apaixonado pelas nossa terra, pelas nossas pistas e pelas suas (nossas) Alfas.
    Que os nossos automolilistas saibam honrar e reverenciar D.Piero, não deixando nunca de relembrar seus feitos e o incomensuravel incentivo dado por ele ao nosso esporte-motor.
    Nessas ocasiões os amigos costumam usar a metafora do sedam branco, que passam pra levar os grandes pilotos e os amigos que nos deixam. Pra D. Piero, tenho certeza que passou uma Alfa Romeo 8 C Competizione, branca com as faixas “tricolore” e com o “quadrifogli verde”. E que ele sentou-se no banco do motorista, e foi embora guiando forte.
    Suponho e desejo que a estas alturas esteja em conversações com o Lolli pra reeditar uma dupla vitoriosa, das antigas.
    O automobilismo brasileiro, o automobilismo italiano, e o automobilismo mundial estão de luto.
    Tu sei un Bravo, D. Piero ! E sará sempre vivo nei nostri cuori.

    Antonio

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  • 2 de novembro de 2010 em 09:56
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    Meus sentimentos a Familia Gancia,aos amigos Carlo e Barbara , pela perda irreparavel,.. Meu amigo Piero se foi,,,estivemos juntos em varias ocasioes, principalmente quando da sua gestão na Presidencia da CBA – Piero sempre foi um idealista e lutou muito para que o automobilismo nacional tivresse o espaço merecido no universo automobilistico ..Conseguistou muitas vitorias nas pistas e na politica automobilistica junto a FIA ,,e a mais importante , na minha modesta opiniao foi a obtençao da super licença para pilotos campeões Brasileiro da antiga Formula 3 – e sempre contando com a competente e apaixonada acessoria do amigo Bird Clemente. ;;;; Luiz Evandro Águia – ( From Floripa )

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  • 2 de novembro de 2010 em 14:20
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    Um amigo que trabalhava para o meu pai conhecia o Gancia na época da Jolly e já falava maravilhas dele como piloto e ser humano . Não sabia que estava doente . Grande perda . Sentimentos a Família Gancia .

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  • 3 de novembro de 2010 em 23:05
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    Tive o maior prazer em trabalhar com Dr. Piero. Perdi um amigo que me ajudou muito. Estou muito triste por essa perda. Barbara e Carlo os meus sentimentos.

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  • 3 de novembro de 2010 em 23:15
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    O Seabra definiu muito bem tudo aquilo que sentimos e passamos ao longo dos anos em que o grande Piero desfilou sua categoria como piloto, sua elegancia, sua gentileza, seus conhecimentos, sua liderança à frente da Equipe Jolly.
    Apresentou a Alfa Romeo ao Brasil e ensinou o brasileiro a gostar, apreciar e amar as Alfas nas corridas de que participava.
    Pero tambem foi o primeiro representante da Ferrari no Brasil.
    Deixa saudades dos carros e da marca Alfa Romeo.
    Meus sentimentos a familia Gancia.

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  • 7 de novembro de 2010 em 16:29
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    Reafirmo e deixo aqui os meus sentimentos a familia Gancia dos amigos acima .

    O Piero foi um esportista dos grandes , conhecido entre nós pilotos da época como um grande Gentleman e tenho gratas lembranças dos ” pegas” que tive com ele e na disputas do Campeonato Paulista de 1966 onde a Alfa Giulia e o Brasinca andaram lado a lado .

    Me lembro muito bem no curso de pilotagem que o grande Piero Taruffi nos deu na época a postura dele em Interlagos , sempre preocupado em nos fazer entender o máximo dos ensinamentos

    Sempre esteve após as corridas a estender sua mão aos participantes num companheirismo inigualavel .

    Que ele esteja no andar de cima, junto com os grandes da nossa éoca que já se foram .

    Meu abraço ao Carlo e a Barbara e toda a familia Gancia .

    Walter Hahn Junior

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  • 8 de novembro de 2010 em 20:09
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    Aos meus amigos de tantos anos, Carlo, Kika e Barbara Gancia fiquei surpreso com a noticia do falecimento do seu carissimo pai, que deixou aqui tantos amigos entre os quais me incluo
    Não vi anuncio de missa e por isto deixo aqui a minha mensagem aqui e os meus sentimentos a vocês
    Carlos

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