MONAC0-TROSSI

Um Avião Sem Asas

O mundo das competições é sempre o palco para as viagens mais alucinadas dos projetistas em todos os cantos do planeta. Assim foi com o Bimotor Paranaense, o VW de 2 motores dos irmãos Fittipaldi, os vários Chaparral, o Rover BRM a turbina, etc.

Na Itália dos anos 30, Augusto Mônaco e o piloto Conde Carlo Felice Trossi construíram o Monaco-Trossi, um estranho “engenho” de 4 rodas com motor radial, do tipo muito usado em aeronaves na época. Monaco, que já vinha de experiências anteriores como projetista de carros de corrida de 1 litro de cilindrada, tração dianteira, para subida de montanha, decidiu construir algo maior, tipo GP, junto com o engenheiro-piloto Giulio Aymini.

Eles tiveram o apoio da Fiat que forneceu as instalações de Lingotto para construir e testar o arrojado motor 2 tempos de 16 cilindros, em 2 carreiras de 8 cilindros cada (diâmetro 65 mm, curso 75 mm), 3982 cm3, 2 compressores Zoller que forneciam a modesta pressão de 0,68 atm, carburador Zenith, 250 HP a 6000 rpm. Com a finalidade de reduzir o tamanho do bloco de alumínio, cada carreira de pistões era movida por 1 biela-mãe à qual estavam conectadas as outras 7 bielas. O cilindro “da frente” compartilhava o cabeçote (e a câmara de combustão) com o cilindro “de trás”, uma arquitetura que também foi adotada nos motores 2 tempos de algumas motocicletas de corrida de antes da Segunda Guerra. Refrigeração dinâmica a ar, ou seja, com o veículo em movimento. Após o insucesso dos testes, a Fiat suspendeu o apoio.

Nesse momento Mônaco aproxima-se do Conde Trossi para convencê-lo a ser sócio no projeto e obtém deste a oferta de construir o carro nas oficinas de Gaglianico, na verdade seu castelo residencial, provido inclusive de ponte rolante elétrica. Outro nobre italiano, amigo de Trossi, o Conde Revelli, participou da empreitada projetando a carroceria, que mais parecia um avião sem asas.

Além das características técnicas já citadas, o carro possuía uma transmissão, na qual um eixo atravessava a caixa de câmbio, chegava à embreagem, e daí de volta à caixa, como em algumas Ferraris de rua atuais e tração dianteira. Em suma, a embreagem não ficava entre o motor e a caixa, e sim, atrás desta, o que facilitava sobremaneira a manutenção, sem a necessidade de afastar o motor da caixa para substituição de um disco, platô ou colar, por exemplo. Um detalhe muito curioso era o fato de seus amortecedores serem reguláveis de dentro do cockpit. Chassi: tubular tipo “space frame”, suspensões independentes e freios hidráulicos nas quatro rodas.

O carro foi apresentado ao público em1935 para testes em Monza em 1935. Aymini e Trossi pilotaram o carro mas o comportamento sob-esterçante (75% de peso na dianteira) que faziam o carro ser muito perigoso, além dos problemas de refrigeração e de ignição, fizeram com que o mesmo nunca participasse de uma competição, mesmo tendo sido inscrito para o GP da Itália de 1935.

A viúva de Trossi, Condessa Lisetta, doou o carro ao Museu do Automóvel de Turim, onde é preservado, sendo exposto eventualmente em eventos como o Goodwood Festival of Speed de 2003, onde as fotos acima foram tiradas.

Luiz Vicente Miranda, é Engenheiro Mecânico, antigomobilista, dono de dois carros esportivos europeus, um MGB Roadster 1967 e um Porsche 914 1974, entusiasta de esportes a motor, ex-kartista e motociclista por quase três décadas, sempre com máquinas inglesas, como Triumph, HRD-Vincent, Norton e BSA.
(reprodução)

Luiz Salomão

Blogueiro e arteiro multimídia por opção. Dublê de piloto do "Okrasa" Conexão direta com o esporte a motor!

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